Água: Memórias de um ancestral sagrado

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Há um grande abismo entre a maneira com que os povos indígenas se relacionam com o planeta e o modo com que a nossa cultura interage com o ambiente em que vive. Para os índios, eles  são a Terra, enquanto para nós, apenas estamos sobre a Terra. Essas diferentes formas de autopercepção em relação ao planeta também se refletem na maneira com que ambas a s culturas se relacionam com a água.

Embora a água seja responsável pela maior parte da composição de nosso corpo, espelhando a composição do planeta, nossa civilização vem mantendo uma estranha relação de distância com esse precioso líquido ao longo dos anos. Nós nos relacionamos com ela como se fosse inesgotável, da qual usufruímos como os únicos a quem ela deve servir. Quanto mais “civilizados”, mais educados para Ter e não para Ser e maior a ilusão de possuí-la. Gradativamente, fomos esquecendo nosso papel ecológico e, consequentemente, fomos corrompendo a função ecológica da água, transformando-a em esgotos.

Para os índios, a água é uma ancestral sagrado. Das águas foram tecidos os corpos dos sentimentos. Assim, se os seres humanos podem se emocionar diante da vida, é graças ao espírito sagrado das águas, que é mãe e avó. É considerada a senhora da abundância e do amor por muitos povos nativos. Seja chuva, orvalho, lagoa, mar, lágrima ou cachoeira: é a fonte que tudo vivifica. Nas aldeias, ocupa lugar especial diante da porta da frente das casas. Sua beleza é apreciada e venerada.

E onde está a água em nossas cidades? Poderíamos dizer que ocupa um lugar semelhante ao dos nossos sentidos e sentimentos: escondida e contida pela dureza e artificialidade dos canos, concreto e asfalto. Contaminada pelos valores artificiais, urbanos e egocêntricos. Assim como são raras as vezes em que experienciamos nossos sentimentos na sua plenitude, tampouco experienciamos a água na sua beleza. Precisamos parar de apontar os outros como culpados pela degradação das águas. Ela está contaminada por nossos valores, nossos hábitos, vaidades, atitudes, cultura. Espelha o nosso ambiente interno.

É preciso recuperar nossa memória nativa ancestral e aprender com a água, que nos ensina a tradição do fluir, da abundância, da clareza, da transparência, do encontro, do servir, da liberdade. Como nos lembram os índios, assim como nossos ancestrais, é preciso deixar às futuras gerações um caminho de infinitas possibilidades às quais chamamos de futuro, ou se preferirmos, culturas  e de cidades sustentáveis.

(Esse artigo é a versão revisada o artigo publicado originalmente  em

MUNHOZ, Deborah. Memórias de um ancestral sagrado. Revista Ecologia Integral, Ano 3, n.12, jan/fev 2003, p. 30)

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