Liderança Feminina para o Século XXI

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*Deborah Munhoz

 Sabemos que, para nós mulheres, a  inserção em posições de tomada de decisão é estratégica e desafiadora. Penso que mais desafiador  e estratégico, no entanto,  é encontrarmos um estilo próprio, verdadeiramente feminino, de liderar nossas vidas, nossos negócios  e empresas dentro de um mundo que se encontra caótico. Afinal. Do que adianta ganharmos o mundo dos negócios  e perdermos a alma?

A questão que venho me deparando desde o tempo em que trabalhei na Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais – FIEMG é: como nós mulheres podemos encontrar um estilo próprio se, desde que nascemos, estamos imersas em modelos masculinos de liderança?  Quando a mídia e as escolas de negócios despejam sobre nós ritmos de trabalho e modelos de gestão que não funcionam para nós, nem para nossas equipes, nem para o planeta? Quantas vezes nos ensinam  linguagem corporal,  formas de nos vestir e nos relacionar  para alcançar um modelo de  sucesso, também masculino, que nos distancia cada vez mais de nós mesmas?

É verdade que estamos ocupando espaços que antes eram somente reservados aos homens. Pergunto:  a forma com que os estamos ocupando está nos transformando em pessoas melhores,  mulheres mais amorosas, saudáveis, bem humoradas e felizes? Estamos contribuindo para  a criação de famílias  mais estruturadas e harmoniosas? Negócios mais éticos, transparentes e limpos? Como mulheres, mães, esposas, educadoras, estamos criando e  formando homens melhores para o mundo? Estamos de fato assumindo posições de poder para melhorar o mundo ou para provarmos que somos melhores? satisfazer  nosso ego  que carece de status?

A verdade é que  estamos chegando ainda que timidamente ao poder  e encontramos “a casa” totalmente desorganizada.  O clima do  planeta está caótico. A água, terra e ar, poluídos e  os alimentos contaminados. Só os brasileiros  ingerem  cerca de cinco quilos de agrotóxico por ano segundo o Dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO. A desigualdade social, violência e a desagregação familiar  batem a nossa porta.

Igualmente, nossa casa interna anda desarrumada.  Boa parte de nós chegou ao poder com um estilo de vida consumista,   materialista e egoísta.  Muitas se tornam escravas de marcas para manter a aparência. Um cenário típico de um modelo civiliatório  em profunda decadência.

Historicamente, quando a casa está desarrumada, a mulher  sempre foi quem soube colocar ordem, harmonizar, cuidar para que tudo volte ao seu devido lugar.  Na vida prática, o trabalho de arrumar a casa deveria ser compartilhado entre homens e mulheres. A arte do cuidado, no entanto,  é essencialmente um atributo do arquétipo feminino.  Mas se o espaço interior das mulheres também está desestruturado, a quem pedir ajuda?

Toda essa desorganização  interna e externa está diretamente relacionada com um modelo econômico  que desconsidera a vida, a saúde e bem estar  de humanos e não humanos e ainda a finitude dos recursos do planeta. Paralelamente, as empresas nunca fizeram tanta propaganda para comunicar ações de sustentabilidade de seus negócios. Isso me faz lembrar  a  estadista Margareth Thatcher  quando disse: “Quando precisar que algo seja dito, chame um homem. Quando quiser que algo seja feito, chame uma mulher.”

Assim, penso que o momento do mundo exige que nós mulheres assumamos nosso papel de agente de transformação nas posições de tomada de decisão em diferentes níveis. A começar de nosso próprio lar. Ele precisa estar em ordem para nos abastecer. E sempre como mulheres, não como homens de  taier.

Os atuais modelos de gestão de empresas assim como o modelo econômico não acolhem nem o talento nem as necessidade das mulheres. De maneira geral, gravidez, menstruação, amamentação, o tempo dedicado à educação dos filhos   e ao cuidado com os idosos  não tem valor,  apenas atrapalham a produtividade de um sistema liderados predominantemente por  homens. De acordo com o documento lançado pelas  Nações Unidas  “As Mulheres do Mundo 2010: Tendências e Estatísticas”, mulheres ainda são raramente empregadas em trabalhos com status, poder e autoridade e em ocupações tradicionalmente masculinas

O mesmo documento afirma que a maternidade continua a ser uma fonte de discriminação no trabalho. Mesmo com a legislação protegendo a maternidade, muitas mulheres grávidas ainda perdem seus empregos, sendo comuns processos nesta área nos tribunais. Como melhorar nossa sociedade sem incluir e proteger a capacidade natural de gerar seres humanos? A ficção aponta há alguns anos que o atual modelo econômico está sistematicamente mudando a cultura das próprias mulheres para criar  novos mercados de reprodução humana à medida em que as mulheres vão perdendo essa capacidade natural. É isso que desejamos?

Hazel Hendersen, uma  das raras economistas de reconhecimento internacional, denomina o  trabalho não monetizado, isto é o trabalho  cujo valor  não é convertido em dinheiro, de “Economia do Amor”. Esse trabalho é  desempenhado principalmente por mulheres e foi estimado em U$11 trilhões de dólares pela ONU em 1995, contra U$ 5 trilhões  gerados pelos homens no mesmo período.

Enquanto as mulheres buscam o seu lugar ao sol,  já repararam quantos homens são chamados para falar sobre liderança feminina nos eventos sobre o assunto? Certamente podemos aprender muito com os homens mas quando o assunto é liderar  de forma  feminina, definitivamente eles não são nossos melhores professores. Então por que  damos a eles esse poder de nos dizer  COMO devemos nos comportar como mulheres líderes?

Os resultados do Relatório Global sobre Desigualdade de Gênero 2013, realizada pelo Fórum Econômico Mundial,  demostraram que  a mudança da condição de desigualdade de oportunidades  das mulheres em relação aos homens em 136 países pesquisados é lenta.  Nos dez  primeiros lugares  da pesquisa estão Islândia,  Finlândia,  Noruega, Suécia,  Filipinas, Irlanda, Nova Zelândia, Dinamarca, Suíça, seguidos pelo único país latino, a Nicarágua.  O Brasil está em 62º lugar enquanto os Estados Unidos aparecem em 23º. Saadia Zahidi, chefe de Paridade de Gênero e Capital Humano  do Fórum e principal autora do relatório, chama a atenção para o fato de que  uma longa história de  reconhecimento  e investimento no talento individual  faz com que os países nórdicos sejam exemplo de  equidade. “Todos são  economias e populações pequenas que reconhecem que o talento é  que é importante” –  lembra Zahidi, se referindo aos dez primeiros colocados. E o talento não é uma propriedade do cromossoma Y, masculino,  está tanto nos homens quanto nas  mulheres. O Brasil  é um  entre tantos  países que ainda não sabe disso.

Simone Weil, filósofa francesa, nos lembra: “O futuro não nos traz nem nos dá nada. Nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo”.  Para darmos tudo, temos que aprender a nos sentir plenas como mulher, ter consciência de que somos, por essência, geradoras da vida. Precisamos aprender a  nos sentir absolutamente confortável como todos os atributos, características e capacidades que a natureza nos deu: gestação, menstruação, amamentação, educação, sensibilidade, lágrimas, suor, amor, coragem ….  e redesenhar  a tecnologia, as empresas, a política e a economia, assim como nossas próprias vidas,  para nos incluir ao lado dos homens, em uma parceria. Uma parceria na qual ambos caminhem lado a lado, nem a frente, nem atrás, para evitar que um faça sombra para o  talento do outro. O masculino e o feminino, o Yin e o Yang, são os pilares do equilíbrio do universo na cultura oriental, como ilustra muito bem o filme “O último mestre do ar” (The Last Airbender) dirigido por M. Night Shyamalan.

Mulheres, assim como os homens são dotados de potencial infinito. Mas, o que adianta ter um diamante no bolso se  nós não  temos consciência da  sua existência, se não reconhecemos o seu valor e não sabemos como usufruir da riqueza que ele potencialmente nos proporciona? Nossa cultura masculinizada nos faz cega à nossa própria natureza e poder femininos.  Douglas Burtet, um dos mais competentes facilitadores do programa Empretec  realizado pelo SEBRAE,  em seu livro: “A Natureza do poder” escreve:

“Poder vem do latim ‘potere’ – ser capaz. É energia de transformação, de movimento de criação. É nossa capacidade de sermos agentes de transformação. De transformarmos a nós e ao mundo. De modelar nosso entorno de acordo com nossa própria intenção. De conseguirmos que as pessoas cooperem conosco. De provocarmos ação. Uma pessoa  de poder se vê capacitada para administrar seus recursos internos e externos. Não se percebe limitada por condições ou condicionamentos pessoais ou sociais. Enquanto a maioria das pessoas olha para a realidade e pergunta: por quê? Ela olha para seus sonhos e pergunta a si mesmo: por que não?”.  Quando nos transformamos, nos libertamos das amarras auto-impostas e podemos agir para irmos em busca do que desejamos. Essa sensação de liberdade se transforma em Poder. Poder para agir. Poder de ser livre”.

A liderança não pode ser oposta à liberdade. Muitas mulheres assumem posições de destaque e se tornam prisioneiras, perdendo-se nas mesmas armadilhas que prenderam os homens: fama, dinheiro, status e poder aquiridos pelos cargos que ocupam. Assim como eles, passaram a depositar sua identidade em castelos de areia que vão ao chão na primeira turbulência financeira ou política. Mulheres assim colaboram para que o mundo chegue à falência mais rapidamente. Para encontrar nosso estilo próprio de liderar é preciso encontrar a nós mesmas.

Não encontraremos nosso estilo enquanto não apagarmos os holofotes trazidos pelas posições e cargos ou mesmo adjetivos que nos atribuem e mergulharmos em nossa própria alma, nosso próprio coração. Precisamos buscar, escavar ainda que ferindo os dedos, investir em autoconhecimento. Parafraseando o templo de Delfos,  “Mulher, conhece-te a ti mesma”  para  desenvolver a líder que há dentro de você!

Assim como um lar precisa estar harmonioso para que toda a família esteja bem e confortável, empresas precisam se tornar lugares onde as pessoas gostem de estar. Os negócios precisam ser “do bem” e  o planeta precisa de empresas limpas e administradas em harmonia com a natureza. Isto não será possível sem que a mulher ocupe o seu lugar ao lado do homem, o equiíbrio do feminino com o masculino.

Sendo fiéis ao nosso próprio caminho, sendo honestas com nosso coração,  correremos o risco de nos tornarmos líderes primeiramente de nós mesmas e assim  administrarmos nossos recursos internos e externos. Travaremos nossas verdadeiras batalhas e certamente teremos mais condições de liderarmos famílias, empresas, corporações e países para um futuro próspero e feliz. Ao final da vida nesse mundo, após vivermos uma vida de significado,   certamente poderemos voltar para as estrelas dizendo como  a poetisa Cora Coralina: “Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores”.

Deborah Munhoz é palestrante, coach e consultora em

Gestão da Qualidade de Vida & Sustentabilidade – deborahmunhoz@gmail.com

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2 pensamentos sobre “Liderança Feminina para o Século XXI

  1. Excelente artigo, Deborah. Em 2012 sugeri à Ministra do Meio Ambiente uma campanha com o tema: VAMOS ARRUMAR A CASA? Entendendo como casa, além do próprio lar, a cidade, o País, o Planeta.
    Cuidar é verbo que tem tudo a ver com o feminino… e com os homens que valem a pena!
    Abraço grande,
    Christina.

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