O Mistério das Coisas Prontas

* por Deborah Munhoz

Desvelando o mistério  de nosso consumo

 

Como citar esse artigo:

MUNHOZ, D. O mistério das coisas prontas.  Revista Ecologia Integral, Ano 4, n.18, jan/fev 2004, pp 27

 A vida na cidade é fantástica: Você pode  encontrar tudo o que precisa no supermercado ou na drogaria mais próxima de você.  Alíás, não precisa mais sair de casa para fazer compras, basta escolher e pedir pela Internet. E, se estiver precisando de sentir-se livre, acrescente na lista de compras uma bebida energizante: pois “te dá asas!” Este é o mundo urbano, onde tudo que a gente precisa pode ser encontrado nas prateleiras de um shopping center. Até pessoas! E com relativa facilidade! A verdadeira origem dos infinitos produtos ofertados, no entanto, permanece velada. Parte dela vem contida nos rótulos, que  poucos  se dão ao trabalho de ler. Apenas consomem. Fala-se muito sobre a destinação final do lixo gerado,  mas o que está por trás das sedutoras propagandas permanece um mistério. A identidade secreta dos materiais permanece velada atrás de processos produtivos desconhecidos que a propaganda não mostra e que muitos consumidores não querem nem saber.

Segundo a pesquisa realizada pelo MMA em 1998 – O que o brasileiro pensa sobre o meio ambiente, do desenvolvimento e da sustentabilidade – o número de consumidores que podem ser considerados como “verdes” ainda não é expressivo e há divergência quanto a possibilidade do quadro mudar em um  período curto de tempo.  Tomando a pesquisa como referência e considerando que o discurso da proteção ambiental está bastante presente na mídia, na sala de aula, entre bate papos e atividades de educação ambiental, concluo que existe muitas  pessoas Pré-ocupadas  mas pouco Ocupadas em poupar verdadeiramente os recursos naturais. Afinal, em um jeito prático de pensar, quem tem que se ocupar com isto é o governo e as indústrias, não é mesmo? Atrás da Pré-ocupação encontra-se um hábito escondido, que fica desapercebido e que dá trabalho desvelar e transformar.

Mas para quem quer sair da preocupação e caminhar para a ocupação, proponho então algumas perguntas básicas: O que estou consumindo? Quanto estou consumindo Por que estou comprando ou querendo comprar? Quem produziu? Como produziu? Tenho opções? Que tipo de propaganda está fazendo para convencer-me a comprar? Que elementos o fabricante (e o/a vendedor(a) está usando para me convencer a comprar? Cabe também perguntar: até onde estamos dispostos a proteger a natureza repensando e mudando o nosso padrão de consumo?  Exemplo: O consumo de balas para refrescar o hálito após o almoço. Uma prática saudável após uma refeição é escovar os dentes, pois além de refrescar o hálito, evita cáries. E se evita cáries, evita o consumo de todos os insumos necessários para uma obturação. Um deles é o mercúrio, mesmo metal usado nos garimpos e que causa tanta contaminação ambiental. Então, se facilitamos o processo da  cárie e condenamos a prática do garimpo, como fica o problema da contaminação ambiental por mercúrio? Será que o lixo do dentista tem uma destinação final adequada? Qual a minha responsabilidade no processo? A compra de alimentos também é um bom exemplo.

Aqui dar-se ao trabalho de ler o rótulo e etiquetas e procurar informações sobre seus  significados para poder fazer uma escolha consciente é essencial. Já se perguntou: por que comprar  água mineral artificial? E as roupas e sapatos lançados para durar apenas uma estação, ou vendidos em liquidação… quanto da natureza foi gasto para em três meses ou mesmo duas lavadas  virar “lixo”?  Estes são exemplos típicos do barato que sai caro. Economizamos na compra imediata, gastamos mais ao longo do ano para repor as peças que deixaram de ser apresentáveis e assim vamos consumindo mais a natureza. É preciso lembrar que  atrás de uma indústria responsável está um consumidor consciente.  A medida que desvelarmos o ciclo de vida dos produtos e assumirmos nossa responsabilidade pessoal  no processo de degradação ambiental, passaremos a fazer diferença. Como disse Gandhi: Nós devemos ser aquilo que queremos ver no mundo.

* Deborah Munhoz  é Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos e  Bacharel em Química pela UFMG.  Técnica em Química formada pelo Colégio Técnico da UFMG. Possui formação em Bioconstrução, Permacultura e Design pelo Ecocentro IPEC.  É palestrante e consultora em Gestão da Qualidade de Vida & Sustentabilidade. Diretora da empresa em fase de start up  HUB-C: Inteligência em Sustentabilidade. Professora  de  Projetos e Produtos com Eficiência Ecológica da pós graduação do IETEC;  Conexão HUB BH

Baixe o arquivo completo  direto do SCRIBD:

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